Globo terrestre

“Avant de savoir faire le tour de la terre, de circonscrire en jours et en heures la sphère de l’habitat human, nous avions mis le globe terrestre au salon pour le tâter et le faire pivoter sus nos yeaux.”
ARENDT, Hannah. Vita Activa: condition de l’homme moderne. Paris: Pocket, 1994, p. 317-318.
O globo terrestre é uma ficção cartográfica que permite ter sob as mãos, em casa, à escala que nos convém, uma imagem tridimensional do planeta sobre a qual fomos colocados. O globo oferece uma visão da terra como se estivéssemos situados em seu exterior, em pleno espaço sideral, a uma altura considerável. É a terra vista do alto, de um universo, por sua vez, desprovido de alto e baixo
Representar o real em uma outra escala é verdadeiramente acessar à realidade?
MONSAINGEON, Guillaume. Mappamundi: art et cartographie. Marseille: Éditions Parenthèses, 2013.
agosto 26, 2014 • Posted in: mapa • No Comments

Les autoroutes de l’information

A internet não comporta nenhum sistema de segurança. Uma mensagem enviada pela internet navega sucessivamente sobre várias redes onde ela pode ser interceptada e lida impunemente. Mesmo os servidores insuficientemente protegidos foram sustentados em um passado recente de numerosas invasões após terem sido conectados à rede. Sua confiança também está em causa. O encaminhamento das mensagens não é garantido. Os congestionamentos podem bloquear a rede durante longos minutos ou mesmo de horas e conduzir, dessa maneira, à perda de mensagens. Enfim, não existe um catálogo de utilizadores ou de serviços. O boca-a-boca constitui o modo de funcionamento mais difundido dessa rede. Além disso, não existe qualquer meio de faturamento sobre a internet sem um cadastro a um serviço que se possa acessar com uma senha. Esta rede é, portanto, mal adaptada ao fornecimento de serviços comerciais. A quantidade de negócios disponíveis no mundo corresponde a menos de um décimo dos serviços ofercidos pelo Minitel. Os limites da internet demonstram, dessa maneira, que ela não se constituirá, no longo prazo, a rede de rodovias mundial.

As rodovias da informação, relatório de Gérard Théry enviado ao primeiro ministro francês em 1994.

É necessário entender um pouco o contexto em que esse relatório foi produzido: os franceses ainda utilizavam os diversos serviços comerciais oferecidos pelo Minitel de maneira massiva. Além disso, o surgimento de uma rede descentralizada, criada pelos norte-americanos, causava bastante desconfiança dos gigantes das telecomunicações (France Telecom). Em outras palavras, essa tal de internet não ia ter a menor chance.

(desculpem pela tradução livre)

BELLANGER, Aurélien. La Théorie de L’information. Éditions Gallimard, 2012.

The Beauty of City Maps

Documetário da BBC sobre mapas. Neste episódio, eles contam a história da criação de três mapas da cidade em diferentes contextos históricos. Lindo.

O artista que eles citam no final do video se chama Stephen Walter. Veja, com mais detalhes, o mapa que ele desenhou.

L’informatisation de la société

No final dos anos 70, a França começou a sentir os efeitos da crise global do petróleo e viu seu crescimento exemplar dos últimos anos pós-guerra recuar consideravelmente.

Em 1978, Simon Nora e Alain Minc preparam um relatório para o governo francês chamado L’informatisation de la société onde alertam sobre a emergência da Telemática - fusão entre comunicação e informática - e seus efeitos futuros na economia e na sociedade. O relatório, que teve repercussão também em outros países, sustentava que a era das redes digitais estava começando e que o governo deveria ter papel preponderante no controle dessa tecnologia estratégica.

O video acima é bem interessante e didático. Após um comentário “cético” do apresentador, um narrador descreve e apresenta o cenário. Destaque para o enfoque dado ao medo do “desemprego” - “o ganho de produtividade permitiria reduzir em 30% a mão-de-obra empregada em tradicionais postos de trabalho, como correios, bancos, seguradoras, etc.”

Para saber mais: Le rapport “Nora-Minc”. Histoire d’un best-seller

Aparelho cibernético

Qual será a estrutura informática da sociedade telemática emergente? (…) A sociedade telemática será a sociedade cibernetizada. (…) Defino “cibernética” enquanto arte de pilotar e dirigir sistema complexo (“caixa preta”) tendo em vista a transformação dos acasos que ocorrem no interior do sistema em situações informativas. (…) Sugiro que, com a abolição de toda autoridade e com a automação de toda decisão, isto é, com a emergência das imagens técnicas, a sociedade não pode ser estruturada a não ser ciberneticamente.

Lembrando que, “cibernética” e “governo” possuem raízes etimológicas semelhantes (kybernien, do grego pilotar, controlar).

Se conseguirmos captar o fascínio que se derramará a partir dos terminais sobre a sociedade emergente, podemos começar a refletir sobre a cibernetização da sociedade. (…) Somente depois de captado o fascínio, podemos compreender porque os nossos netos se assumirão simultaneamente “artistas criativos” e “funcionários programados”, “dominados” e “dominadores”, “governo” e “governados”. Os nossos netos saberão melhor que as imagens os dominam precisamente porque são eles os que dominam as imagens. Eles saberão, melhor do que nós, o que significa “paixão criativa”, “atividade apaixonante”, “liberdade para sofrer e sofrer a liberdade”.

Uma visão de futuro onde os nós se confundem. Os pólos se invertem a todo momento. Poderíamos, da mesma maneira, inferir a coexistência de “publicador” e “leitor”, “autor” e “crítico”, “leitor” e “escritor”, “autoridade” e “mediocridade”, ou seja, tudo que o uma rápida passagem por postagens do facebook ou comentários em notícias nos revela facilmente.

Dou um exemplo óbvio dessa emergência da consciência nova, dessa superação da distinção entre ativo e passivo: a fotografia. Quem predomina na sua produção: o fotógrafo ou o aparelho? Quem é objeto, quem é sujeito, quem ativo e quem passivo? O aparelho determina o fotógrafo ou o fotógrafo o aparelho? Obviamente, a resposta adequada à situação é esta: o fotógrafo funciona em função do aparelho, o aparelho em função do fotógrafo e ambos são funções da produção de fotografias.

Taí: a fotografia como máquina clássica da pós-história. Instrumento primeiro da pós-modernidade.

Obs.: eu gosto muito do Cartiê-Bressão!

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Autor e criatividade

Toda informação se produz como síntese de informações precedentes, por diálogo que troca bits de informação para conseguir informação nova. O mito do autor pressupõe que o “fundador” (o gênio, o Grande Homem) produz informação nova a partir do nada (da “fonte”). (…) Atualmente, a massa das informações disponíveis adquiriu dimensões astronômicas: não cabe mais em memórias individuais, por mais “geniais” que sejam. Por mais “genial” que seja, a memória individual não pode armazenar senão parcelas das informações disponíveis. E tais parcelas armazenas aumentaram, elas também, de modo que o consumidor médio detém atualmente mais informações que o “gênio” renascentista. Tais parcelas de informação exigem processamento de dados para serem sintetizadas em informação nova: a memória humana se revela lenta demais para poder processar semelhante quantidade de dados. O diálogo interno e solitário se tornou inoperante.

Flusser “decreta” o fim do conceito de autor, como aquele criador solitário, genial e único. A criação de informações novas é sempre fruto de recombinações de informações precedentes. O criativo, portanto, seria aquele indivíduo que domina a técnica de melhor combinar as peças para formar algo inesperado, tal como um jogador.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

Telemática - comunicação digital

La photographie electrique à distance - Georges Méliès

A revolução cultural da atualidade iniciou-se nos meados do século XIX por duas tendências distintas, embora convergentes. A primeira tendência visava a computação de elementos pontuais sobre superfícies e o termo “informática” pode servir para rotulá-la. (…) A segunda tendência visava irradiar os elementos pontuais e pode ser rotulada pelo termo “telecomunicação” (…) Essas duas tendências convergem atualmente para formar uma única, designada pelo termo “telemática”. A convergência é recente. Graças a tal amálgama técnico dos conceitos “informação” e “comunicação”, as imagens técnicas começam a revelar seu verdadeiro caráter.

Segundo Flusser, foi necessário um período considerável para que as pessoas percebessem que a fotografia poderia ser “telegrafável”, e o cinema poderia ser “telefonável”, embora tais invenções tenham surgido mais ou menos na mesma época. Ou seja, somente após a invenção do video e das linhas de transmissão a cabo é que a consciência da junção entre computação e transmissão foi despertada. Embora o termo “telemática” não tenha vingado, essa convergência de tendências ilustra bem as origens da comunicação digital.

Pensando melhor, a transmissão de imagens à distância já era sonhada por alguns artistas contemporâneos das invenções do cinema e do telégrafo. Méliès, por exemplo, em 1908, já propunha uma máquina de “fotografia elétrica à distância.” Porém, vários anos foram necessários para que essa convergência de tecnologia sugerida por Flusser pudesse ser viabilizada comercialmente.

Em seguida, ele se refere à característica de “encapsulamento” da tecnologia digital, dizendo que qualquer criança, por exemplo, será capaz de gerar de sintetizar imagens no computador ignorando completamente a complexidade dos processos por trás do software e do hardware.

O que caracteriza a revolução cultural atual é precisamente o fato de que os participantes da cultura ignoram o interior das “caixas pretas” que manejam. A situação cultural precedente exigia dos seus participantes que aprendessem cultura (ler, escrever, fazer imagens);  a situação cultural emergente elimina a aprendizagem e se contenta com a programação dos seus participantes. (…) O desprezo pela técnica que sustenta a nova situação cultural está inscrito no seu programa.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. P. 83-84

Os novos filhos da revolução

A revolução cultural atual, a que vai acabar com as formas sagradas, é revolução “técnica”, não política, e é isto que nos confunde. Mas o mesmo pode ser afirmado a respeito de todas as revoluções culturais precedentes. A revolução neolítica, por exemplo, surge a partir de novas técnicas da pecuária e da agricultura, e a revolução industrial surge a partir de novas técnicas apoiadas em teorias. Ambas as revoluções acabaram com o que se tinha previamente por sagrado. Os revolucionários “políticos” vieram depois dos técnicos para injetar “valores”, para “sacralizar” as formas sociais emergentes. Por exemplo, os fundadores das religiões neolíticas, os jacobinos e os bolchevistas. Os verdadeiros revolucionários eram os “inventores” da vaca e da máquina, mas eles não se consideraram revolucionários nem foram assim considerados. O mesmo vale a para a atulidade. São os inventores das imagens técnicas (e dos demais produtos revolucionários) que derrubaram o sagrado, e Daguerre e Niepce são mais perigosos para os nossos valores que Robespierre ou Lenin.

Quem se engaja politicamente na atualidade deve se haver não com as formas sagradas, mas com as novas técnicas. Seu engajamento deve ser o de “valores” nas formas emergentes. E, para fazê-lo, precisa analisar criticamente tais novas formas. (…)

O novo engajamento político, entretanto, não se dirige contra as imagens. Ele procura inverter a função das imagens, mas admite que elas continuaram a formar o centro da sociedade por todo o futuro previsível. Ele procura fazer com que as imagens sirvam a diálogos mais que a discursos, mas não pretende aboli-las. O novo engajamento político nasceu no interior da revolução técnica atual, ele não se opõe a ela. (…) É que os novos revolucionários são “imaginadores”, eles produzem e manipulam as imagens, eles procuram utilizar sua nova imaginação em função da reformulação da sociedade. Os novos revolucionários são fotógrafos, filmadores, gente do vídeo, gente do software, e técnicos, programadores, críticos, teóricos e outros que colaboram com os produtores de imagens. Toda essa gente procura injetar valores, “politizar” as imagens, a fim de criar sociedade digna de homens.

(…) Tal reformulação revolucionária da sociedade informática, na qual as imagens deixariam de ser imperativas e passariam a ser dialógicas, seria ainda sociedade “informática”, mas com um significado novo para o termo.

Flusser escreveu isso em um contexto onde a efervescência das novas tecnologias de comunicação se tornava cada vez mais evidente. Os mass media, tal como foram idealizados no modelo de broadcast começavam a sofrer abalos estruturais pelos fluxos laterais proporcionados pelas tecnologias de comunicação em rede e pela informática. De fato, como foi possível constatar após esses anos, os verdadeiros revolucionários desse período (as últimas 3 décadas do século XX), não foram aqueles que berraram contra a TV e os jornais nas ruas, com megafones, cartazes, bombas e golpes de estado. Mas sim os técnicos que se aprofundaram na tecnologia para usar a informação (a “imagem” no caso do Flusser) para revirar o balaio. Foram os pesquisadores americanos inventores da internet, uma rede descentralizada justamente construída sobre uma plataforma mantida por uma das entidades “sagradas”: o exército. Essa visão “otimista” sugerida pelo Flusser foi muito bem captada por outros autores mais contemporâneos, como Castells e Levy. A “sociedade em rede” e a “cibercultura” de fato sintetizavam o espírito revolucionário da virada do século. (eu adoro esses textos!)

Após alguns anos, o otimismo esfriou? Quando vemos a inundação de dados (selfies, foodies, check-ins, tags, tweets) gerada pelas câmeras dos smartphones, GPS e outros dispositivos hiperconectados não estaríamos diante de uma nova da massificação desestimulante? Qual é o sentido dessa profusão? Os gênios revolucionários da tecnologia (Steve Jobs e Google) criaram os novos monstros engolidores de dados do momento. Tais revolucionários visionários, assim como os burgueses jacobinos e os bolchevistas, foram astutos e espertos o suficiente para fazer a revolução, mudar as peças do jogo e tomar a champagne no final.

Talvez a alternativa esteja dentro do próprio sistema, como por exemplo a cultura do software livre as iniciativas dos dados abertos.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

A nova história

A nossa situação face às imagens é esta: as imagens projetam sentidos sobre nós porque elas são modelos para o nosso comportamento. Devemos entusiasmar-nos, para em seguida codificar nosso entusiasmo em determinados gestos. Os modelos funcionam porque mobilizam em nós tendências recalcadas, e porque paralisam as nossas faculdades críticas e adormecem a nossa consciência. Passamos a vivenciar, valorar, conhecer e agir como sonâmbulos ou como fantoches. Quando conseguimos mobilizar as nossas faculdades críticas a fim de nos emanciparmos da hipnose, as nossas críticas não atingem a vivência concreta. O nosso comportamento sonâmbulo e a inadequação da crítica tradicional aumentam em nós a sensação do espectral que acompanham o universo das imagens. Nossos gestos passam doravante não apenas a se constituir como reações às imagens, mas passam a dirigir-se igualmente rumo às imagens. As imagens passam a ser os nossos interlocutores, os parceiros na solidão a qual nos condenaram. Quando os nossos gestos visam aparentemente o mundo (ganhar campeonato, fazer revolução, comprar máquina de lavar roupa), dirigem-se efetivamente às imagens, são respostas às imagens. (…) As imagens apanham os nossos gestos graças a determinados aparelhos (câmeras, marketing, pesquisas de “opinião pública”) e os transcodificam em programas; nutrem-se de gestos que elas próprias provocaram. Essa circulação entre a imagem e o homem forma um círculo de aperfeiçoamento automático. As imagens se tornam sempre mais “fiéis” (mostram como nos comportamos efetivamente) e nós nos tornamos sempre mais “fiéis” às imagens (comportamo-nos efetivamente conforme o programa).

Tudo se precipita rumo às imagens para ser fotografado, filmado e videoteipado o mais rapidamente possível a fim de ser recodificado de discurso em programa. Jamais no passado houve tanta “história” como atualmente. (…) No entanto, essa “história” nossa, essa história inflada, não é história verdadeira. Não é mais resultado de gesto que visasse modificar o mundo, não é mais expressão de liberdade, mas sim resultado de gesto que visa imagem.

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. (p. 60-62)

Aparelhos automatizados

Partiremos deste pressuposto: informação = situação pouco provável. Vejam só, como a coisa fica interessante:

Os aparelhos são programados para criarem situações pouco prováveis, a saber, imagens. Pois isto implica que tais imagens estão inscritas nos seus programas enquanto virtualidades, e que, quanto mais se desenrolam tais programas, tanto mais se torna provável a realização de imagens. (…) Os programas são jogos que “computam” (juntam) elementos pontuais ao acaso (”acaso” = o que caiu junto). Toda imagem técnica é produto do acaso, de junção de elementos. Toda imagem técnica é “acidente programado”.

Para entendermos melhor a ideia acima, vamos considerar a máquina fotográfica. Por mais que o fotógrafo possa explorar os limites inesperados de uma composição fotográfica, ele sempre será limitado a fotografar imagens que constam no programa da câmera. “O aparelho faz o que o fotógrafo quer que faça, mas o fotógrafo pode apenas querer o que o aparelho pode fazer.”

Por outro lado, a situação acima ilustra algo interessante: é latente a intenção do criador de imagens técnicas em produzir algo que possa agir contra o programa, contra as virtualidades esperadas.

“A tarefa da crítica de imagens técnicas é pois precisamente a de des-ocultar os programas por detrás das imagens. A luta entre os programas mostra a intenção produtora humana. Se não conseguirmos aquele deciframento, as imagens técnicas se tornarão opacas e darão origem a nova idolatria, a idolatria mais densa que a das imagens tradicionais antes da invenção da escrita.

De modo que a recepção das imagens técnicas exige de nós consciência que resista ao fascínio mágico que delas emana e ao comportamento mágico-ritual que provocam.”

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008. (p. 28-29)